Segunda-feira, Agosto 23, 2004



[é o fim dos tempos, que seja!]



Na areia cinza do fim dos tempos, queimam os nossos pés, e ardem nossas almas, expostas ao sol apocalíptico do amor que não funciona, longe dos nossos lábios arroxeados pela neblina que a intensidade do fim não compreende.

Sentamos juntos, infelizes, contando nossos dedos, antes da onda verde levar tudo. Será que você não percebe que este é o fim, e que estamos aqui, descalços, você vestido de preto, e eu nesse vestido velho de noiva, rodeados por um mundo preto e branco sem sentido algum, e esse é o nosso último instante?

Eu fui boba algumas vezes, eu não entendi o bater reverso do teu coração. Eu achava que você tinha os olhos azuis, e no fim das contas eram verdes. Eu nunca entendi de mim direito, e achava que podia te entender. Eu pensava que você não ligava pra mim, mas no fim de tudo, quem te abandonou fui eu.

E a única pessoa com quero estar quando tudo explodir, quando tudo degenerar, é você, a pessoa mais infeliz que já conheci. Será que você não percebe que eu sou infeliz também? Vamos compartilhar nossa dor, agora é a hora. Ou você pretende ir à algum lugar, quando tudo acabar, e a chuva púrpura infernal do juízo começar?

Agora só faz sentido essas nossas olheiras violetas e o que mais? Eu te beijo a barriga deitado na areia do fim dos tempos, e teus olhos gritam na minha direção. Eu sorrio triste, e beijo os teus dedos dos pés, contando-os um à um, sentada, sentindo tudo desaparecer em torno de nós. A areia cinza nos corta com a verdade. Eu sei como é sentir-se perdido, e que você sente-se assim, mas eu sempre soube que pertencia à você. E agora estou aqui, para o fim do todo, junto à ti.

Eu filmo o teu olhar com os meus olhos, e o que mais você tiver que fazer façamos agora, eu quero te despir, te engolir, e te sentir porque não há mais razão para continuarmos com essa nossa falta de liberdade. Eu quero cortar as minhas costas com os espinhos das rosas desse buquê, eu sou tola, mas eu sou a tua noiva apocalíptica, e tu, me aceitas?

Então vamos nos consumir, que é tempo, antes que o fim o faça.

:: Lady Bleu et Sang :: disse às 12:09 AM.


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Domingo, Agosto 01, 2004

:: Peixe Grande ::
Tim Burton

:: O Fantástico Mundo dos Circos de Horrores por Tim Burton ::

Tem uma cena em Big Fish que não sai da minha memória: o personagem principal Edward Bloom - interpretado por Ewan McGregor - vai tirar satisfações com o seu patrão, o maquiavélico dono do Circo Calloway - que é na verdade interpretado por Danny DeVito, o inesquecível "Pinguim" de Batman Eternamente - à respeito de uma moça pela qual ele está apaixonado. Em seu caminho, numa cena rápida, porém congelante de dois ou três segundos, ele encontra no fundo do circo, os palhaços ainda maquiados após a apresentação da noite, jogando baralho, bebendo e fumando compulsivamente. Uma cena aparentemente simples, mas que pra mim causou impacto.


Danny DeVito como Amos Calloway, dono do Circo Calloway, repleto de aberrações humanas


Havia toda essa magia em torno dos circos na época da Grande Depressão, e no período pós-guerra, porque as pessoas simplesmente não tinham mais com o que se divertir. Havia desespero em suas vidas, e uma falta de esperança abissal. Aquele instante mágico dentro dos circos, era o único momento em que elas podiam esquecer a vida amargurada e totalmente sem expectativas que estavam levando, para divertirem-se, e soltar algumas risadas, que geralmente engrandeciam-se quando as aberrações humanas entravam em cena. Talvez seja pelo fato de que é mais cômodo perceber que existe gente que leva uma vida bem mais amarga, e difícil que a nossa própria vida - levando em consideração de que aqueles eram tempos terríveis - e rir de uma deformidade, ou de um aleijado, era praticamente um consolo.


As irmãs chinesas siamesas Ping & Jing encantavam, e causavam espanto aos soldados na W.W.I de Tim Burton



Calloway Circus e seus incomuns habitantes


A história de Big Fish na verdade, é mais sobre a condição familiar. A barreira entre pai e filho, que agiganta-se com a falta de diálogo durante os anos. É difícil dizer qual família não tenha passado por essa situação, onde alguém tem que fazer o papel de interlocutor [nesse caso, a mãe], por causa de richas mal resolvidas. Big Fish torna-se altamente íntimo, para quem já passou por isso. O filme é altamente fantasioso, e a história trata sobre o pai de Edward Bloom, interpretado por Albert Finney, que é um o contador de histórias fantásticas, inveterado, que encanta as pessoas à mesma maneira que irrita o filho, um realista, que não acredita em nada do que ele conta. A decepção do filho é ver o pai chegar à alta idade, enfermo, e ainda insistindo em suas histórias amalucadas, porém contadas com orgulho pelo velho. O enredo do filme é mel com açúcar, mas serve como pano de fundo para mostrar um pouquinho do que acontecia nos fabulosos circos de aberrações do passado.


Edward Bloom trabalhando duro no circo de horrores.


Uma das passagens mais interessantes, e que retratam de forma cômica o que acontecia na época dos grandes circos de horrores, é quando Edward Bloom leva seu amigo, o gigante Karl para o circo Calloway, que tem lá um gigante de araque como atração. Fascinado, Amos Calloway, o dono do circo dispensa o seu pseudo-gigante, e prepara um contrato para Karl, e daí surge um dos diálogos mais divertidos do filme: Calloway pergunta ao gigante Karl se ele já ouviu falar em "servidão involuntária" ou em "contrato inescrupuloso", e para ambos Karl responde não. Porque era nessa base que funcionavam os circos naqueles remotos tempos: escravidão por falta de opção. O que não quer dizer que as deformidades não curtissem seus momentos de brilho durante os shows.

O ator que interpreta Karl, Matthew McGrory, realmente é um gigante. O ator tem 2,40 m de altura, ele já entrou para o Guiness Book como sendo o homem que tem os maiores pés do mundo, e já trabalhou como aberração em outro filme de circo de horrores, Jimmy Bolha, que tem como ator principal Jake Gyllenhaal, - ele que fez Donnie Darko, mas essas conexões, abordando Donnie Darko, Jimmy Bolha e Matthew McGrory eu vou justificar em outro momento aqui no blog.


O filme Peixe Grande tem a música "Man of the Hour" da banda Pearl Jam na trilha sonora.


O que conta em Big Fish é a visão do diretor, o forte lirismo que Tim Burton carrega nas veias, a atmosfera de sonho que ele escolheu para mostrar o encantamento dos Circos de Horrores, rica em detalhes como as cortinas pesadas e vermelhas do picadeiro tomando conta da cena, animais malabaristas, a platéia perplexa, e ainda mais bizarra que as próprias atrações do circo. Ele teve todo o cuidado em capturar o que havia de essencial nesses circos, como a bandinha marcial alarmante, o canhão humano, as girafas, elefantes, o parque de diversões montado ao lado do circo, e o delicioso segredo em torno do dono do circo Amos Calloway. E também a trilha sonora inconfundível dos filmes de Tim Burton. Enfim, é possível apreciar nesse filme todos os elementos dos circos de aberrações que marcaram um momento melancólico, porém inestimável para a história da humanidade.


:: Lady Bleu et Sang :: disse às 12:07 PM.


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Aberrações da Natureza, Aberrações Humanas, Anomalias, Apocalipse, Arte Militar, Cadeira-Elétrica, Circo de Horrores, Coney Island, Corredor da Morte, De Humani Corporis Fabrica, Guerra, Humanidade, Jesus Cristo, Joel-Peter Witkin, John Wayne Gacy JR., Liberdade, Onirismo, Richard Avedon, Serial Killers, Volúpia


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Poesia nuclear de Dani Blue Carneiro
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